A HISTÓRIA DA DIVERSIDADE
Artigo de Marco Ornellas

escrito por Marco Ornellas

Há setenta milhões de anos atrás, em uma savana africana, nasceu um filhote de uma nova espécie de primatas. Sua mãe pertencia a um pequeno bando, não tão numeroso. A espécie em si não era muito numerosa, tinha acabado de sair de uma curva evolutiva, se distanciando da espécie anterior da qual havia se originado.

Sem armas naturais como garras ou chifres, tinham dificuldade para sobreviver entre os predadores e mesmo para conseguir alimento. Mas aquele pequeno bando conseguiu, por algum tempo. Aquele filhote cresceu e se tornou um jovem adulto, forte o suficiente para sobreviver a uma epidemia virótica que abateu todos os outros membros. Não sabia o que tinha acontecido, mas sabia que sozinho não duraria muito. Sua única opção seria entrar para outro bando da sua espécie. Para sua sorte, havia dois outros na região.

Com medo da recepção que teria, ele resolveu observar um de cada vez. Logo entendeu que os dois bandos tinham diferenças: um, dava preferência à comer frutas e raízes, enquanto o outro, havia desenvolvido técnicas de caça e conseguiam capturar pequenos roedores, que eram a base da alimentação. Como ele próprio tinha preferência por uma dieta carnívora, optou por tentar ser aceito no último bando. Foi difícil, levou tempo, mas ele conseguiu. Provavelmente, quando em algum momento os dois bandos se enfrentaram, ele pôde ajudar aqueles que o adotaram a exterminar os rivais.

A partir daí, esses primatas foram evoluindo e dando origem a outras espécies. Uma delas, os homo sapiens. Nós.

A história da humanidade não é uma história única. São milhões de histórias, todas elas marcadas pela divisão. Pode ser a sua aparência, a sua nacionalidade, a sua religião, o seu time, você gostar de uva passa ou não… A lista pode ser infinita, ainda mais se pensamos nas divisões dentro das divisões.

Estamos na América Latina, mas cultivamos nossa rivalidade com a Argentina; sendo brasileiros, nos dividimos por regiões; o Sudeste tem preconceito em relação ao Nordeste, mas dentro do Sudeste, temos uma rivalidade Rio x São Paulo; dentro do estado de São Paulo, temos um preconceito em relação aos caipiras do interior; dentro da cidade, de um bairro com outro e até dentro das casas, temos um irmão que é corintiano e outro palmeirense…

Faz sentido tanta divisão?

Mesmo do ponto de vista de espécie, precisamos lembrar que no mundo de 100 mil anos atrás, havia pelo menos seis espécies humanas habitando este planeta, todas derivadas daqueles primatas. Como diz o historiador israelense Yuval Noah Harari  em seu livro Sapiens:

“É nossa exclusividade atual, e não a multiplicidade de espécies em nosso passado, que é peculiar – e, talvez, incriminadora.”

Nosso passado é violento. E é violento porque se construiu em cima de divisões. Poderíamos compartilhar esse planeta com os Neandertais, por exemplo, mas nossos antepassados pensaram diferente. Hoje, eles só existem nos genes que muitos de nós carregam, testemunhas silenciosas de um processo misto de extermínio e de assimilação de uma espécie, talvez em decorrência de luta por espaço, alimentação ou somente porque os sapiens os achavam muito diferentes.

Hoje, ao olharmos para muitas organizações corporativas, vemos um pouco da reprodução desse passado. Claro, há toda uma estrutura e códigos desenvolvidos que fazem com que atitudes que na sua raiz são violentas, como aquelas de discriminação, rejeição ou segregação, recebam um verniz civilizatório. Por que pessoas ainda são demitidas por serem homossexuais, ainda que com outros pretextos? Por que temos uma porcentagem tão baixa de negros em postos de comando?

Divisões hoje não fazem sentido do ponto de vista de uma espécie que se pretende racional. Não podemos dar ouvidos a instintos que nos ajudaram a sobreviver milhões de anos atrás. Eles não fazem mais sentido.

O que temos hoje – ainda que fruto desse passado violento e cheio de divisões – é uma sociedade múltipla e plural, o que pode trazer benefícios para todos os grupos que a compõem, trazendo perspectivas diferentes e outros olhares. Graças à diversidade, temos culinárias e manifestações artísticas diferentes, por exemplo. Graças a ela podemos desfrutar de tecnologias desenvolvidas em outros lugares e temos uma multiplicidade de tratamentos de saúde. Viver em um mundo assim é muito melhor do que viver em uma cultura única. Mas essa é uma consciência que não é tão simples de alcançar.

“Diversidade e Inclusão, a gente não entende com a razão, a gente entende com o coração. Isso tem a ver com as mensagens que a gente recebe ao longo da vida e essas mensagens trazem uma lente, através das quais eu estou enxergando o mundo.”

Essas são as palavras de Cecília Pinzon, Inclusion & Diversity Regional Leader da Korn Ferry International, uma das entrevistadas da série Inclusão da Diversidade, que vamos lançar na próxima semana, conversando com vários profissionais que se dedicam a transformar empresas em lugares mais justos, que possam refletir as comunidades em que estão inseridas. Ao longo dessa série, vamos conhecer histórias pessoais e iniciativas de sucesso, que têm ajudado muitas empresas a darem passos sem volta em direção ao reconhecimento da diversidade como algo positivo e também à necessidade de inclusão. Vamos falar de racismo, direitos LGBT, autismo, refugiados, sempre pela ótica dos movimentos inovadores que estão sendo realizados por diversas empresas.

O mundo mudou e temos que usar isso a nosso favor. A diversidade é uma vantagem e juntar pessoas diferentes em um mesmo grupo é torná-lo mais forte. Nesse sentido, é preciso romper com o nosso passado e construir um novo presente. Juntos. Sem deixar ninguém de fora. Com a ajuda dos nossos entrevistados, vamos investigar quais são as ações necessárias para isso.

 

Artigo de Marco Ornellas – Consultor e CEO da 157next.academy

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