CAPITALISMO CONSCIENTE
Artigo de Renata Alvarez Coelho

Assisti a webinar “Novo normal nos negócios” (157 next insights) e fiquei encantada com o conteúdo da discussão. Estamos, realmente, vivendo em tempos de esgotamento. Esgotamento em diversos elementos da nossa sociedade, inclusive, como bem colocado na webinar, o esgotamento desse capitalismo “cruel”, sempre carregado de um certo “fanatismo” materialista, no qual de alguma forma, acabam “evoluindo” muito mais as “coisas” do que as próprias “pessoas”. Em algum momento da live me perguntei, diante dessa sociedade capitalista, até que ponto essa postura materialista das empresas e das pessoas é de fato por opção ou por própria imposição do sistema?

Lembrei de uma live com a participação da Luiza Helena Trajano (Magazine Luiza), na qual em uma de suas falas ela comenta sobre uma decisão que ela tomou para sua rede de lojas muito mais movida a um propósito do que em a um desejo de “resultado financeiro” de curto prazo. Essa atitude exigiu muito “sangue frio”, ao ver a primeiro momento suas ações despencarem diante dessa postura. Ela comenta que só conseguiu concretizar a sua “idéia movida por propósito” por estar comandando uma empresa de capital aberto (na época 75% familiar), caso contrário, teria que fatalmente abrir mão da sua posição e seria “voto vencido”. É interessante essa vivência que ela compartilha mostrando que em alguns momentos ainda há uma certa limitação ou impotência na defesa de atitudes e idéias baseadas em propósitos e no combate a esse capitalismo “selvagem”.

Atitudes fundamentadas em propósito (seja a nível individual ou corporativo) a alta digitalização e movimentos como o “Capitalismo Consciente” ao mesmo tempo contestam e transformam gradativamente a cultura predominante de se fazer investimentos e negócios no Brasil, e no mundo (vale conferir os comentários colocados na webinar, por sinal muito interessantes, dentre eles a discussão sobre o modelo econômico da fluxonomia 4D , e a referência dos conceitos de Retorno sobre Investimento (ROI) x Retorno sobre o Tempo (ROT), com a substituição do termo “time” para “TRUST”).

Várias entidades, incluindo a ONU, já clamam por uma maior consciência das empresas, e já se passaram 10 anos que foram estabelecidos os 17 ODS para 2030, mas ainda muito pouco foi feito. No que diz respeito a propósitos e marketing em torno dos esforços de sustentabilidade e responsabilidade, por imposição desse “capitalismo cuel” ou não, as empresas de fato ainda “vivem” muito pouco esses valores no dia a dia.

A prática do Capitalismo Consciente é baseada em quatro princípios: Propósito Maior, Cultura Consciente, Liderança Consciente e Orientação para Stakeholders, e foca em Valores universais que transcendem as diferenças de história, de idioma, de religião de cultura. Foca na humanização das empresas, que passam a entender que precisam trabalhar muito mais voltadas em resultados para a sociedade e para o planeta do que para os seus acionistas.

Esses movimentos fundamentais diante da nossa realidade só confirmam o meu sentimento de que Humanizar é preciso. O sistema capitalista parece esgotado, o planeta parece esgotado, e o ser humano parece esgotado, especialmente diante da sua luta interna por sentido e propósito.

Mas, como colocado na webinar: Temos abundância! A tecnologia é abundante (Livro Abundância – Peter Diamantis) o nosso planeta é abundante, o mundo é abundante. Além disso, temos muita gente boa, e do bem por aí – eu pelo menos, acredito que a maioria das pessoas é boa, não considero muito esse “recorte” distorcido da nossa sociedade que a mídia nos passa. E mais, a nossa capacidade como seres humanos é abundante, sabemos que utilizamos muito pouco do nosso potencial.

Esse livro da Abundância parece ter uma abordagem de futuro otimista diante do desenvolvimento tecnológico. Mas a peça chave para que toda essa tecnologia trabalhe para o bem, para um futuro realmente abundante ainda é o ser humano.

A tecnologia em mãos erradas pode gerar escassez. Desenvolvemos ciência e tecnologia perfeitamente, mas e o desenvolvimento de nós mesmos? Independente de “imposições” sociais, precisamos humanizar o ser humano também!

Pode até parecer redundante, mas precisamos de “mais seres humanos mais humanos”, isto é, mais fraternos, mais virtuosos, menos “apegados às coisas”, mais evoluídos. E de quebra isso acaba contribuindo para uma sociedade mais capaz e potente. Ainda, uma característica chave, precisamos de humanos generosos que tenham grande capacidade de superação do EGOÍSMO.

Parece que nós também chegamos no “patamar do esgotamento” e, agora, ou andamos em círculos ou subimos o degrau!

Se formos considerar a evolução das “coisas” essas parecem estar andando (independente se em velocidade suficiente ou não)… a tecnologia, os modelos de investimentos e de negócios, a tendência de evolução do capitalismo a partir da “alta digitalização” (com transição gradual da “economia do consumo” para a “economia do cuidar”, a migração da produção em massa para produção customizada, a valorização do “usar” e “viver” ao invés do “ter” e o reconhecimento da importância de se gerar valor com recursos e resultados além do monetário …). Movimentos similares ao capitalismo consciente só crescem, o próprio instituto no Brasil está em processo de expansão. E sobre toda essa evolução também já temos bastante cases e referências (como esses links e livros que a webinar cita). Porém, precisamos urgentemente ficar atentos à reforma humana.

A formação de seres humanos com valores, caráter e virtudes deve acontecer com força e em paralelo… nas comunidades, nas famílias, nas empresas, na educação (para nossos jovens e crianças)… começando por nós como indivíduos…

…e aqui as muito usadas frases “seja a mudança que você quer ver no mundo” ou “a mudança começa por nós mesmos”são chavões, mas cabem muito bem.

Um outro ponto colocado na webinar que me chamou muito a atenção, é uma das ideias do movimento das empresas humanizadas, que consiste em honrar o espírito das leis e não “as letras das leis”, o que “está escrito”. Isso parece ter muito siginficado. Empresas humanizadas são de fato coerentes com seu discurso, por honra, e não só por marketing, cobrança ou vigília social.

E nós, como seres humanos, também não deveriamos seguir essa linha? Imaginem se honrássemos o espírito das nossas “leis”…

Ainda, dentro de certos limites da nossa realidade, não deveriamos “inventar” leis, deveriamos aplicar leis universais, somente adaptando-as diante de nosso contexto espaço-temporal. Isso, pelo menos até o momento, parece ser também uma questão fundamental considerando a evolução humana. Considerando o valor do “propósito” para benefício de um “todo”, até parece que estamos diante de uma Lei Universal (o livro Caibalion*, aborda as Leis Universais e a transformação dos homens de chumbo em homens de ouro).

Não há duvida que nesse mundo capitalista “cruel” (que vem do homem) ainda há muita dor e sofrimento, e são muito bem vindas essas tendências e iniciativas que buscam lapidá-lo e torná-lo “menos bruto” ou “mais bonzinho”. E se formos pensar, via de regra, as coisas, a tecnologia, a natureza cumprem com seus papéis. Mas, e nós seres humanos? Cumprimos com o nosso?

Com a oportunidade de quase um ano de “sabático” (sabático não muito “convencional”, pois me dediquei a casa e aos meus filhos pequenos), somado a perto de 90 dias de quarentena, ouvindo muitos, me convenci ainda mais que nosso principal papel é focar na evolução das pessoas, e na evolução de nós mesmos, buscando por propósitos maiores individuais e coletivos.

As empresas mudam muito pouco se as pessoas não mudam e isso parece evidente se pensarmos que empresas são feitas de pessoas. Para nós como indivíduos, conquistas financeiras, reconhecimento, conforto, prestígio não é mal, mas não devem ser encarados como objetivos finais, e sim como meio ou consequência diante da luta por uma meta mais elevada de evoluir e de somar nessa vida para o todo.

Se, para as empresas, muitos defendem que o caminho é propósito elevado com foco em resultados positivos que abraçam não só a saúde financeira de uma companhia, mas tudo…seus stakeholders, sociedade e planeta; para nós como indivíduos, o caminho é muito parecido, o propósito elevado de evoluir a cada dia como ser humano (nem que seja um pouquinho mais evoluído) com foco em superar o nosso egoísmo, desenvolvendo a nossa generosidade.

* O livro Caibalion pode ser considerado como a melhor referência sobre a filosofia do antigo egito, uma civilização considerada extremamente desenvolvida em termos de domínio de forças mentais, sabedoria e evolução humana.

 

Artigo de Renata Alvarez Coelho – Engenheira Química – PhD em Engenharia de Alimentos – Humanista – Filósofa – Artista – Escritora – Mãe

 

https://www.linkedin.com/in/renata-alvarez-coelho-49404645/

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