CAPITALISMO CONSCIENTE E SISTEMAS COMPLEXOS
Artigo de Renata Alvarez Coelho

Vivemos o capitalismo do mundo da interdependência e da conectividade, de mudanças rápidas, com diversas facetas (mundo VUCA – volatility, uncertainty, complexity and ambiguity), e o cenário é de empresas em constante transição e adaptação a essa realidade, em menor ou em maior grau. As empresas surfam entre ordenaçãocomplexidade e caos, ainda com muito apego ao checklist, às melhores práticas, ao planejamento e controle, enquanto a complexidade e o caos se fazem cada vez mais presentes e frequentes.

Sentimos uma espécie de inquietação ao que é efêmero, a tudo aquilo que é temporário, talvez por um certo comodismo. Pensar que as mudanças não ocorrem e que há plena previsibilidade é uma grande ilusão, nossa e das organizações. Dormimos e acordamos com enigmas e instabilidades. Vivemos num emaranhado de seres e mundos complexos, sistêmicos, interligados.

Lembro quando cursava engenharia, e estudávamos sistemas influenciados por diferentes variáveis. Para o controle e solução desses sistemas, era necessário fixar variáveis. Quando penso em toda essa complexidade na qual as companhias estão mergulhadas, e que tudo muda, qual seria a constante? Nossa consciência precisa do permanente como referência, como ponto de apoio.

 “Sob todas as aparências do Universo, do tempo, do espaço e da mobilidade está sempre encoberta a Realidade Substancial, a Verdade Fundamental.”

Essa frase oriental tem alguns milhares de anos, e para mim é também complexa. Imagino que pode ter mil e uma interpretações e aplicações. Me parece tão boa, tão adequada para um “grito de guerra” nesse mundo incerto, volátil, ambíguo, em que tudo é aparência e tudo passa. Proponho aqui a hipótese de que a “constante” desse “emaranhado complexo e instável” seja o próprio ser humano.

Do ponto de vista da “aparência”, o homem mudou ao longo dos anos, ficou mais ereto, mais culto, mais high tech, mais sociável, mais ansioso. Porém, seguindo uma lógica inspirada na frase milenar, dentro desse mesmo homem, sempre existiu (e existe) uma Realidade Substancial, uma Verdade Fundamental que permanece, sobretudo constituída por valores essencialmente humanos. E as obras humanas? Todas parecem ter um quê de seu criador e de atualidade… o arco e flecha, a pedra polida, a muralha da China, a máquina, o robô, a inteligência artificial, a tecnologia…se pensarmos bem, todo esse repertório é muito humano.

No que se refere ao caráter sistêmico “universal” (que a digitalização e conectividade também têm revelado, ou melhor, escancarado) a má distribuição de renda, a fome, a miséria sempre foram excelentes indicadores. Somos como um grande organismo vivo, composto por unidades de células, interdependentes, cada qual com sua função…função essa que, se não bem executada, impacta o todo, inclusive a elas mesmas. Num mundo complexo, integrado, diverso e colaborativo que abraça todos os stakeholders, virar as costas para esse comportamento sistêmico também é insustentável para as empresas.

Interdependência e incerteza são características marcantes do mundo conectado e globalizado e fazem parte da “gestão da complexidade”.

Quanto às tentativas de gestão dessa complexidade, as empresas pensam que podem “controlar” os sistemas. Na engenharia, por exemplo, temos variáveis para fixar, condições de contorno para delimitar, o logaritmo para linearizar. A questão é que os teóricos já apontam que sistemas complexos são sistemas abertos, que exigem uma certa consciência de que não existe uma só verdade ou uma só solução, elas são múltiplas e, na prática, estão muito mais para “verbo” do que para “substantivo”…

Uma outra doutrina oriental diz que “todos os paradoxos podem ser reconciliados“. Parece que a tendência seja, aos poucos, a busca por práticas emergentes, e não por melhores práticas – a partir de olhares diferentes que se complementam e que geram reflexões mais genuínas e profundas; e também a busca por reconciliação e não apenas por solução.

Um bom ponto de apoio para as empresas, diante desse contexto mundo “VUCA”, pode ser a Realidade Substancial do ser humano com um grande desafio de sustentar um ambiente corporativo que permita considerar e explorar essa “constante”. É o momento do “desapego”, é hora de superação das vaidades, de quebra de paradigmas, de sincronia, de valorização da individualidade, de identidade, de customização, de multidisciplinaridade, de diversidade.

É tempo da união, da consciência sistêmica, e principalmente, da vivência de Valores e de Propósitos nas organizações.

Os pilares do movimento do Capitalismo Consciente, vem muito ao encontro de todas essas questões: propósito maior capaz de curar problemas e dores da sociedade, incentivo à liderança consciente, relação equânime entre todos os stakeholders, e a preservação da cultura consciente que sustenta o propósito na prática dentro das organizações.

 

Artigo de Renata Alvarez Coelho – Engenheira Química – PhD em Engenharia de Alimentos – Humanista – Filósofa – Artista – Escritora – Mãe

 

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