HARD SKILLS, SOFT SKILLS E HUMANIZAÇÃO
Artigo e Renata Alvarez Coelho

Para a formação do profissional do futuro, nessa era da transformação digital, de mundo VUCA – volatility, uncertainty, complexity and ambiguity – e de profundas mudanças na sociedade e no mercado de trabalho, percebemos uma crescente valorização das soft skills (habilidades comportamentais). Entre as 10 principais habilidades listadas pelo relatório do Fórum Econômico Mundial (super transversais e já importantes para 2020) estão: pensamento analítico e inovador, aprendizado ativo, criatividade, originalidade, solução de problemas complexos.

O relatório do Fórum Econômico Mundial é uma boa referência, porém é interessante moderação ao avaliarmos listas de habilidades elencadas por relevância, ascensão ou declínio. A propósito, as hard skills (habilidades técnicas) não perderam, de forma alguma, sua importância, precisamos equilibrar, aliar soft skills a hard skills, elas são complementares.

Diante da crescente preocupação de substituição de postos de trabalho humanos por robôs, muitos já acreditam que o futuro transformado digitalmente tem muito espaço para o ser humano exercitar o seu lado mais humano. Alé disso, a crescente complexidade dos desafios exige evolução de todo um conjunto de competências. A relação espaço temporal desse nosso mundo é muito mais complexa do que imaginamos, e um homem é muito mais que uma “soma” de soft skills e hard skills. É interessante que quanto mais estudamos o ser humano, mais confirmamos sua grandeza, e mais humanistas ficamos… percebam a “contradição”: quanto mais o ser humano descobre sobre sua grandeza, complexidade e beleza, menos “narcisista” fica!

Inseridos em uma sociedade que muito mais informa do que forma, de modo geral, o nosso modus operandi busca quase sempre por uma resposta pronta, única, uma “opinião formada sobre tudo” (como diz uma conhecida música…) e tudo vem sempre muito carregado de Mindsets que buscam por estabilidade e previsibilidade. Esse modo de operar nos afasta das características sistêmicas e complexas tão evidentes e desafiadoras da nossa realidade, ir na direção da complexidade é necessário como bem observa Humberto Mariotti.

Em toda essa mudança, abertura, flexibilidade, diversidade há denominadores comuns. Cada vez mais, o nosso momento de vida sistêmica, complexa, instável, efêmera – e o futuro – exigem TUDO de nós! As habilidades listadas nos relatórios, as não listadas, as “em ascensão”, as em “declínio”, soft skillshard skills e tudo mais o que se possa ter direito.

Pensando nas hard skills e soft skills, e fazendo um jogo com as palavras ócio e negócio, do latim ócio vem de otium, que faz o homem se voltar para as coisas da alma e negócio vem de negotium, que faz o homem se voltar para as coisas do corpo. Na formação/educação da Grécia antiga, os gregos não eram tão preocupados com hard skills e com soft skills como eram com a formação Humana (Paidéia – A formação do homem grego – Werner Jaeger). Entendiam que as principais habilidades de alguém estava relacionada a valores, aos bons princípios que norteiam as ações humanas. Todos nós sabemos que nosso modelo atual é muito mais voltado para a informação humana.

O que se observa por aí, nesse mundo de crise do sistema capitalista, crise de sustentabilidade e, principalmente, de crise de valores, é a configuração de um novo cenário que demanda um set de Hard Skills + Soft Skills + Desenvolvimento Humano.

Para muitos já caiu a ficha da importância do desenvolvimento de habilidades essencialmente humanas . Temos muitas ferramentas, referências, ciência e tecnologia. para desenvolvermos essas habilidades tão sutis e tão necessárias, podemos recorrer à filosofia, à psicologia, à neurociência… E tudo junto, e misturado, possibilitando que todas as áreas do conhecimento se conversem.

Com a formação Humana, retomamos nossos valores e desenvolvemos uma série de habilidades como a orientação para servir (já mencionada no relatório do Fórum Econômico Mundial), a humildade, o controle da mente, a superação do egoísmo, a visão sistêmica, o desapego à resposta única e pronta, a consciência do não saber, do imprevisível, do efêmero …e uma série de outras habilidades humanas tão necessárias para nos aproximar de um mundo muito mais condizente com o nosso desejo, com a nossa real identidade.

No movimento da liderança Shakti no Brasil, o termo shatki tem origem indiana e diz respeito à integridade de habilidades e capacidades humanas comumente definidas em masculinas e femininas. Ainda não conheço a fundo esse projeto, mas o que acho muito interessante é que a liderança investe em autoconhecimento com orientação para todos os stakeholders – só fazendo aqui uma observação, a ideia de Gênero vai muito além do feminino e masculino, tem relação também com criação, regeneração, identidade …e isso também podemos aprender desenvolvendo nossas habilidades essencialmente humanas. Na filosofia, podemos ir à fonte, e explorar obras de gênios muito conhecedores do ser humano, como Pitágoras (Versos de Ouro), Platão (A República). Para outros gostos, temos autores contemporâneos com obras excelentes que conseguem traduzir essa filosofia mais antiga para uma linguagem mais atual. Na neurociência, temos Dr. Alan Watkins, que inspira lideranças mais conscientes.

Estamos com a faca e o queijo na mão, agora é hora de partir para a ação e para a Humanização. Reconhecer a natureza e a essência do ser humano é cumprir com a tarefa de ir ao encontro da complexidade.

O mundo tem sede de Regeneração. Pede união, gênero, criatividade, identidade… inteligência, intuição e o máximo de nossos valores e habilidades. Nos convida a utilizar toda a nossa força, mente e coração. Requer que a gente deixe de olhar para o próprio umbigo e nos voltemos ao outro, agindo com todo o nosso potencial. A água não vai acabar, as máquinas e os robôs não lutarão contra os homens, essas ideias estão muito mais para vitimização e para filmes que se assiste comendo pipoca. “Nada acontece ao homem que não seja próprio do homem” (Marco Aurélio). O mais importante é o que o mundo e a vida esperam de nós: uma humanidade mais capaz, menos egoísta e mais fraterna.

 

Artigo de Renata Alvarez Coelho – Engenheira Química – PhD em Engenharia de Alimentos – Humanista – Filósofa – Artista – Escritora – Mãe

 

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