O “faz parte” que nos aparta
Artigo de Liliana Loureiro

O ano letivo carioca teve início essa semana, e ao ver a saída dos alunos do ensino médio me lembrei dos meus últimos anos de escola, com tanto ainda por desbravar, porém cheia de certezas para o futuro. Daqui a algumas semanas, muitos desses jovens, recém saídos da escola, estarão nas ruas do bairro pintados dos pés a cabeça, com roupas do avesso e outras travessuras impostas pelos veteranos. Travessuras essas que na minha época eram barra pesada! Quem foi calouro na década de 90 sabe! Pintar o rosto e sujar a roupa era o mínimo. Dependendo da instituição perdia-se a vergonha, os cabelos e, em alguns casos, até a vida. Muitas brincadeiras de mal gosto que, ao que me parece, vem caindo em desuso. Que bom!

Apesar do medo do famigerado trote a gente passava por ele, e tenho poucas referências de amigos que ficaram traumatizados com o evento. Era uma iniciação, para marcar o início de uma parte importante da vida. No fundo era um sentimento de “faz parte”. E quando reflito sobre este sentimento chego a seguinte conclusão:

Que ele é parte de uma cultura em que, para se conquistar algo é preciso sofrer. É preciso passar por uma provação, é preciso pagar o preço; preço que, no caso dos calouros, foi um dia pago pelos que hoje são veteranos; e que cobram, em forma de brincadeira, suas humilhações aos recém chegados. O ciclo não para. A cultura do “eu sou maior que você e por isso você me deve” está presente em todas as relações sistêmicas, fato! Cultura que, segundo Charles Einstein, filósofo e pesquisador norte americano, fomenta a história da separação; ou seja, narrativa coletiva criada pela sociedade contemporânea, norteada pelo ego e reforçada pelos hábitos e crenças de sistemas excludentes e abusivos.

Mas não quero chamar a atenção para a prática do trote no momento, mas sim para o comportamento cíclico e inconsciente (ou não) de retaliação que acontece nas relações sistêmicas e acomete a grande maioria de iniciantes, como os pobres calouros a que me refiro. Façamos a linha do tempo pós escola: o calouro de hoje é o estagiário de amanhã, que é o júnior de depois de amanhã e o subordinado de alguém no outro dia. Mas seria pueril da minha parte dizer que relações tóxicas hierárquicas começam na porta da escola; porque elas começam na porta de casa. Manda quem pode, obedece quem tem juízo! Frase conhecida e reconhecida por todos, desde a tenra idade. Educação do comando e controle, das regras sem escuta em casa, do engessamento das ideias e repreensões dos argumentos na escola e que se cristalizam na cultura do Top/Down nas empresas. Quem cresceu sem considerar a criança — ou sendo a própria criança desconsiderada — não pode considerar o aprendiz não é mesmo?

Hoje me deparei com uma situação dessas de dissonância hierárquica. Um NÃO indiferente e sem escuta silenciou um argumento coerente, reforçando o ciclo vicioso de relações abusivas nas instituições e fora dela. Gerando crenças como lei do retorno, alimentando ideias de cinismo e corrupção. Ali se perdeu empatia, confiança e talvez coragem de argumentar uma próxima vez. Se perdeu uma oportunidade de conexão, porque esta é uma habilidade humana e estamos demasiadamente acostumados a nos tratar uns aos outros como coisas, perfis e posições.

Quando me deparo com histórias assim, tento exercitar meu olhar de designer e buscar referências organizacionais que me ajudem a entender o mecanismo sistêmico que culmina nessa indiferença do outro. E o que vejo são pessoas. Pessoas que também foram criadas nessa cultura de separação, de medo e vergonha. Pessoas que julgam e são julgadas, batem e apanham como se isso fizesse parte. Parte de que? Se este é justamente o movimento que nos aparta?

Nada faz mais parte do que a parte do todo! Logo você faz parte, eu faço parte! Vamos fazer parte juntos? E SÓ assim podemos evoluir rompendo os ciclos viciosos que nos ensurdecem no poder e nos emudecem na vulnerabilidade, construindo coletivamente sistemas mais conscientes e humanos que dependem, principalmente, da nossa auto consciência e percepção. Depende de como criamos nossos filhos, não para prepará-los para um futuro longínquo lá onde a vista se perde, mas para construir com eles uma nova cultura agora, no presente!

Sigo na esperança de ainda ver meninas e meninos celebrando suas conquistas com seus corpos pintados mas suas almas intactas. Espero de coração que, iniciantes dos conhecimentos específicos, sejam veteranos naqueles que construímos com amor, empatia e escuta.

Artigo escrito por Liliana Loureiro – Life Design, Mentora e Facilitadora

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