O QUE EU APRENDI COM MEU GAROTINHO DE PIJAMA
Artigo de Graziela Merlina

Festa do Pijama. Quatro anos de idade. Dormir na escola com os amiguinhos. Colchão e lençóis já enviados um dia antes. Euforia e ansiedade se misturando dentro da criança, dentro dos pais, dentro de casa.

O meu menino, loirinho, de riso raro, pele clara e uma timidez enigmática. Não falava muito sobre a Festa do Pijama que se aproximava, mas perguntava de minuto em minuto se já estava na hora. E esse era o seu jeito de demonstrar ansiedade e expectativa.

Já não se preocupava mais com a chupeta. Já não fazia xixi na cama. Já tinha dormido fora de casa outras vezes com os avós. Mas, dormir com amigos, assistir filme, comer pipoca, fazer guerra de travesseiros. Ah! Isso seria muito novo.

Foi então que ele fez seu pedido: “mãe, posso levar meu potinho de fazer bolinhas de sabão?”

Um cenário se montou na minha cabeça: uma sujeira, sabão caindo nos lençóis, crianças chorando porque sua cama estava molhada, o sabão escorria pela chão, crianças escorregavam e batiam a cabeça. As professoras se perguntavam “quem foi essa mãe louca que deixou o filho trazer isso aqui?” As outras crianças disputam o potinho entre si porque todos queriam brincar até que, o conteúdo de água e sabão se derrama inteiro dentro da travessa de pão de queijo que fazia a diversão das crianças. Choradeira. Meu filho se desculpando sob olhares de recriminação. Minha resposta saiu categórica: “não. não é apropriado”.

Seus olhos entristeceram, mas não dei atenção. Eu já tinha a sentença.

Na hora certa, ele tomou seu banho, vestiu seu pijama preferido, pegou sua mochilinha e com o potinho de bolinhas de sabão na mão fomos para o carro. Claro que eu não dei bola. Quando chegar na escola eu pego esse potinho e pronto.

A escola era bem próxima de casa. Chegando lá havia uma linda recepção. As professoras, algumas vestidas de personagens, luzes, música. Tudo colorido e alegre. As crianças estavam felizes. Uma mais linda que a outra. Reparava em cada pijaminha, em cada penteado, em cada sorriso até que me percebi reparando que todos tinham algo na mão. Uma lanterna.

Sim. Era isso que estava no comunicado da escola. Levar uma lanterna. E eu havia esquecido. Nem se quer sabia se havia alguma em casa pra que eu pudesse ir correndo buscar. Culpa, raiva, remorso. Tudo misturado.

Foi neste momento de auto flagrante que ele estava entrando na escola e direcionou o potinho de bolinhas de sabão pra me entregar. Não pensei. Só disse: “leva com você filho”. Acho que foi uma compensação pro meu coração de mãe despedaçado. Jamais esquecerei do sorriso que se abriu. Pra sempre na memória.

Não posso dizer que passei a noite em claro, mas por diversas vezes me pegava pensando como ele estaria sem a sua lanterna. Será um trauma em sua vida?

Amanheci com uma pressa incomum de ir buscá-lo. Estavam todos com carinhas de cansados e felizes ao mesmo tempo. Mas cadê ele? Como ele está? Demorou a aparecer. Será que está com vergonha? Está chorando? Tão perdida em meus medos quase nem percebi que ele estava chegando. Me entregou suas coisas, me deu um beijo e disse: “foi bem legal mamãe”.

Escapuliu a pergunta sem dar tempo de brecar: “e a lanterna?”

“Que lanterna? Não precisei de lanterna. Eu tinha bolinha de sabão. Foi muito mais divertido”.

Fiquei sem palavras. Curto o silêncio. Dei um enorme abraço nele.

“Vamos logo mamãe. Quero ir pra casa dormir.”

“Dormir?”

“Aqui tava muito legal pra dormir.”

“E o que você fez?”

“Um show com bolinhas de sabão. Acho que eu sou engraçado, mamãe”

Mais tarde, observando-o dormir em sua caminha, me pego pensando: “será que eu tenho trocado minhas próprias bolinhas de sabão por lanternas?”

E assim me permiti ficar no escuro. Pra pensar com a luz da imaginação e sem a luz da lanterna.

Uma lembrança que já tem dez anos e que me fez lembrar que nem precisei comprar pilhas novas pra minha lanterna, pois tudo tem sido muito mais simples e claro com água e sabão.

 

Graziela Merlina é Conselheira Capitalismo Consciente Brasil. Idealizadora do HUB Consultores Conscientes @CasaMerlina. Fundadora da ApoenaRH. Game Designer e Palestrante.

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