O QUE POSSO SER QUANDO NÃO PRECISO SER PERFEITA
Artigo de Graziela Merlina

Outro dia me deparei com uma série de lembranças da minha infância. Resolvi escrever sobre elas. São as minhas confissões de criança. E ao escrevê-las fui me dando conta de tudo o que eu sou ou posso ser quando a minha criança me salva da necessidade de ser perfeita.

Nesse dia me peguei rindo sozinha. São lembranças que pertencem só a mim. Coisas que talvez por vergonha, medo de levar bronca ou até de parecer ridícula ficaram no refúgio da minha memória. Agora já não me causam mais vergonha ou medo. Simplesmente uma doce saudade da auto permissão de transgredir. Uma vontade de eternizar a criança que vive em mim.

Lembro quando começava a chover, e minha mãe pedia ajuda para tirar a roupa do varal. Eu fazia tudo muito, muito devagar porque o mais legal era tomar chuva mesmo. Enquanto eu fingia que não alcançava algumas roupas, me divertia com a água escorrendo pelos meus cabelos.

E então, eu podia ser travessa, porque eu não precisava ser perfeita.

Minha mãe dizia que eu não podia comer muita salsicha porque engordava (sim, naquela época as crianças comiam salsichas). Eu não acreditava. Daí, eu pegava salsicha escondida e ia comer com a mão em cima da barriga pra sentir se ela crescia. Como nada acontecia eu achava que minha mãe me enganava só pra eu não acabar com as salsichas.E então, eu podia ser curiosa, porque eu não precisava ser perfeita.

E então, eu podia ser curiosa, porque eu não precisava ser perfeita.

Uma vez havia um cheiro horrível na geladeira. Minha mãe não descobriu nada estragado. Mas foi porque eu tirei de lá antes dela saber. Foi a minha tentativa frustrada de fazer brigadeiro. Só me lembro que não poupei ingredientes. Vai saber a reação química que deu.

E então, eu podia ser criativa, porque eu não precisava ser perfeita.

Eu e minha irmã adorávamos brincar de “jacaré”. Não, não era na praia. Era na sala de casa. Aquele tapete azul nos lembrava o oceano. As almofadas ao chão faziam a vez dos tubarões. Nós tínhamos que pular de um sofá para o outro sem cair, se não seríamos devoradas. A porta da sala ficava fechada, assim dava tempo de disfarçar se alguém chegasse. Afinal, pisar e pular no sofá era proibido.

E então, eu podia ser aventureira, porque eu não precisava ser perfeita.

Eu tinha medo de uma parede da cozinha. Sempre havia muitas formigas ali e minha mãe dizia: “Nossa! Que formigueiro!” Pra mim, formigueiro era um homem que morava lá dentro da parede e fabricava formigas. Eu tinha medo desse homem.

E então, eu podia ser desinformada, porque eu não precisava ser perfeita.

A noite sempre me fascinou. Adorava esperar todos dormirem pra viver à noite sozinha na casa. Em algumas delas, eu ligava a TV para assistir aos filmes de terror que passavam na madrugada. Outras noites, eu ia lá para o quintal e me sentava no chão para conversar com as estrelas. Meus Deus, quantas conversas boas. E havia noites ainda onde eu dançava, dançava e dançava. Havia um espelho enorme de ponta a ponta na parede de uma das salas. Era lá que a bailarina se apresentava.

E então, eu podia ser artista, porque eu não precisava ser perfeita.

Iniciando a adolescência diziam que, para aprender a dar beijo na boca, a gente tinha que treinar com gelo ou na própria mão. Então estava eu treinando com a minha mão encostada na parede, em um cantinho bem escondido no quintal. Não consigo relatar a vergonha que senti quando vi que o vizinho estava em cima do telhado consertando algo. O lugar era escondido, mas não pra quem estava vendo de cima. Acho que levei anos pra conseguir olhar na cara dele de novo.

E então, eu podia ser sensual, porque eu não precisava ser perfeita.

Era bem comum aplicarmos trotes pelo telefone. Uma diversão que hoje em dia não dá nem pra fazer. Mas teve um trote que passou dos limites. Ligávamos para as pessoas dizendo que tínhamos uma mensagem do além e em geral fazíamos uma piada sem graça, como por exemplo, sua cueca está suja de coco. Mas, em uma ocasião, o senhor levou muito a sério e chamou a esposa: “Fulana, vem logo, acho que tem uma mensagem da sua mãe pra você.” E ele dizia ao telefone: “D. Hermínia, pode falar. Estamos aqui.” Desligamos o telefone na hora. Estava com uma amiga. E até hoje não sabemos se quem deu o trote na verdade foi ele.

E então, eu podia ser inconveniente, porque eu não precisava ser perfeita.

Ah! E muitas outras mais.

Como a sua criança pode te ajudar a ser o que você pode ser quando não precisa ser perfeit@?

 

Graziela Merlina é Conselheira Capitalismo Consciente Brasil. Idealizadora do HUB Consultores Conscientes @CasaMerlina. Fundadora da ApoenaRH. Game Designer e Palestrante.

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