POR QUE ESSE É O MOMENTO DE REVER A SUA CULTURA ORGANIZACIONAL
Artigo de Magali Lopes

Segundo a Folha de S.Paulo, “com a pandemia e a força dos protestos antirracistas desencadeados pela morte de George Floyd, a Ambev decidiu criar uma nova diretoria, dedicada à saúde mental, diversidade e inclusão dos funcionários”[1]. Ao ler essa notícia no jornal, confesso, eu vibrei.

Vibrei porque essa é uma conversa que, já há algum tempo, eu tenho fomentado dentro das organizações. Vibrei porque a iniciativa é um reconhecimento de que emoções e pensamentos não podem mais ser ignorados ou colocados em uma caixinha. Vibrei porque o movimento feito pela Ambev, uma líder não só do seu setor, mas uma força empresarial do país, é uma ação prática, que pode inspirar outras companhias. Acima de tudo, é a prova de que o que vivemos hoje, essa convulsão em tantas dimensões, é o momento ideal para iniciar uma mudança, que começa pela cultura organizacional.

Por quê?

A professora de psicologia da saúde da Universidade de Vrije, de Bruxelas, Elke Van Hoof, classificou o confinamento imposto pela pandemia como o “maior experimento psicológico da história”, pois pode provocar distúrbios psicológicos, inclusive transtornos pós-traumáticos comparáveis àqueles observados em guerras[2]. Exagero? Várias pesquisas mostram que não.

Um estudo recente da consultoria americana Better Workplace Better World[3] destacou que:

1 em cada 4 trabalhadores está em depressão ou sem esperança;

 41% está se sentindo drenado, à beira de um burnout;

1 em cada 3 não sabe como lidar com essa situação.

Embora a pesquisa citada acima, tenha sido feita nos Estados Unidos, a situação brasileira não é tão diferente assim. Nesses primeiros meses de enfrentamento à COVID-19, mais de 7 milhões de postos de trabalho foram fechados[4]. De acordo com o IBGE, 5,4 milhões de brasileiros, contingente ligeiramente inferior ao total de habitantes da Dinamarca (ou seja, de um país inteiro!), estão desalentados, isto é, desistiram de procurar trabalho[5]. Quem está empregado sente medo – medo de perder o emprego, de perder a renda, de perder pessoas queridas, de perder a vida.

A crise política, econômica, social e ambiental (pois até ciclone já tivemos, causando terror e estragos no sul do país) nos faz acordar e dormir dentro de uma panela de pressão todos os dias. Nem vou falar da queda do muro entre família e trabalho, agora coabitando o mesmo espaço, ou do Zoom Fatigue, efeito colateral das longas jornadas de trabalho no home office. Se existe uma verdade absoluta nesse mundo VUCA é que:

Ninguém está operando sob condições normais de temperatura e pressão.

É muita novidade, muita adversidade, muito estresse. É uma hiperprodução de cortisol, que afeta o humor, o sono, a libido, a criatividade, o sistema imunológico.

Há quem considere essa situação transitória. “Vai passar, tudo vai voltar ao normal”, dizem. Há quem negue todas as emoções e mudanças em curso. Trata esse momento sem precedentes como uma dor de cabeça passageira. Nada que um remedinho não resolva. Tapa-se o sol com a peneira, só para não encarar a situação de frente.

O que eu tenho repetido é que, para ter futuro, chegou a hora da autoconsciência e da autogestão.

As culturas organizacionais sempre foram muito cartesianas, avessas a esse papo de autodesenvolvimento. Sempre se buscou padronizar tudo, como se uma pessoa fosse igual a outra, como se fosse possível deixar as emoções em casa, antes de ir para o trabalho. A boa notícia é que algumas empresas já perceberam que agilidade emocional não é autoajuda, é uma questão financeira. Estudo da Korn Ferry com quase 500 companhias de capital aberto revelou que aquelas com melhor desempenho financeiro têm funcionários com níveis mais elevados de autoconsciência emocional[6].

Para a psicóloga organizacional Tasha Eurich, a autoconsciência é uma meta-habilidade do século XXI, algo que 90 a 95% dos líderes pensam ter, mas a verdade, segundo os estudos da PhD, é que esse montante é bem menor – menos de 15%[7].

Autoconsciência significa não só conhecer a si mesmo (sentimentos, valores, paixões, aptidões, identidade), mas também compreender a percepção dos outros sobre si e ter empatia por outras perspectivas. É, como costumo dizer, um superpoder. Nada mais de repelir ou esconder o que “está fora do padrão”. Emoções existem e são informações valiosíssimas, assim como as necessidades e prioridades, diferentes de pessoa para pessoa, de situação para situação. A autoconsciência permite a autogestão, um recurso que abre inúmeras portas. Para Daniel Goleman, que há quase três décadas fala de inteligência emocional, “uma compreensão mais completa do seu mundo interior pode melhorar sua capacidade de criar estratégia, de inovar e de gerenciar organizações”.

A quem estiver lendo esse artigo, posso apontar três dicas para começar a olhar para essa questão da autoconsciência e da autogestão. Quem me conhece ou me acompanha sabe que falo sempre disso:

  • Abrace a sua vulnerabilidade: ninguém sabe tudo, nem precisa saber. Colocar-se nesse lugar de aprendiz, do “não-saber”, é maravilhoso e urgente. (Re)descubra a sua organização, (re)descubra seu cliente, (re)descubra a sua vida, (re)descubra-se.
  • Pergunte: Resgate a sua curiosidade e faça perguntas não só sobre você, seu colega, seu cliente ou a empresa onde trabalha, mas sobre tudo à sua volta. Não sabe por onde começar? Então, compartilho a sugestão de Michael Marquardt, dada durante um talk promovido pela Eight Diálogos Transformadores. Questione-se: O que estou fazendo bem? O que eu poderia fazer melhor? Renovar nosso olhar é o convite que as crises nos trazem e é também o “segredo” de vários líderes visionários – de Bill Gates a Leonardo da Vinci.
  • Escute: De nada adianta fazer perguntas se não estiver apto a escutar e a trabalhar informações diferentes daquelas que está acostumado, que considera ideais ou até que julga óbvias. É uma tarefa desafiadora para a maioria das pessoas. Lembre-se: a escuta é o lugar consciente da empatia. Ofereça esse olhar curioso para o outro, escute, aprenda, abra-se para o novo.

Às organizações, repito: essa é a hora de transformar a sua cultura. Gosto muito de um ditado popular que diz:

“O que afunda o barco não é a agua de fora, mas a água de dentro”

No mundo em que vivemos, não só o momento que atravessamos, não dá mais para desconsiderar as emoções e os pensamentos divergentes. A Ambev entendeu isso e dá um recado bem claro. “Hoje anunciamos um novo momento da nossa Cia, queremos entender onde podemos melhorar, como podemos nos conectar cada vez mais com nossos colaboradores e como podemos inspirar ainda mais Cias a olharem de forma diferenciada para a Sustentabilidade Humana”, declarou a líder da nova diretoria, Mariana Holanda, em seu LinkedIn[8]. Nenhuma empresa precisa, nem deve, copiar o modelo da gigante de bebidas. Ninguém precisa necessariamente criar uma área para lidar com essa questão. Basta colocar em pauta e no coração da estratégia – não para sobreviver à COVID-19, mas para ter futuro.

Referências:

[1] “Na pandemia, Ambev cria diretoria de saúde mental”. Folha de S. Paulo, 01 de julho de 2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painelsa/2020/06/na-pandemia-ambev-cria-diretoria-de-saude-mental.shtml. Último Acesso: 02/07/2020.

[2] “Coronavírus: confinamento é ‘o maior experimento psicológico da história’, diz especialista em trauma”. BBC, 27 de junho de 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-53204453. Último Acesso: 02/07/2020.

[3] Estudo “Navigating COVID-19: How a crisis impacts workplace mental health” foi compartilhado em webinar promovido pelo Prof. Dr. Aylmer PhD. Versão completa disponível aqui: https://pages.shrm.org/mental-health. Último Acesso: 02/07/2020.

[4] “Pandemia aniquilou 7,8 milhões de postos de trabalho no Brasil”. Folha de S.Paulo, 30 de junho de 2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/06/desemprego-chega-a-129-em-meio-a-pandemia-da-covid-19.shtml. Último Acesso: 02/07/2020.

[5] “Taxa de desemprego no trimestre que se encerrou em maio atinge 12,9%”. Jornal Nacional, 30 de junho de 2020. Disponível em: https://globoplay.globo.com/v/8664343/. Último Acesso: 02/07/2020.

[6] ZES, David; LANDIS, Dana. A Better Return on Self-awareness. Korn Ferry Institute, August 2013. Disponível em: https://www.kornferry.com/insights/articles/better-return-self-awareness#:~:text=A%20new%20analysis%20of%20results,higher%20levels%20of%20self%2Dawareness.&text=The%20frequency%20of%20such%20blind,ROR%20of%20those%20companies’%20stock. Último Acesso: 02/07/2020;

[7] “What Self-Awareness Really Is (and How to Cultivate It)”. Harvard Business Review, 04 de janeiro de 2018. Disponível em: https://hbr.org/2018/01/what-self-awareness-really-is-and-how-to-cultivate-it. Último Acesso: 02/07/2020.

[8] Mariana Holanda – LinkedIn: https://www.linkedin.com/posts/mariana-holanda-5116ba21_painel-sa-na-pandemia-ambev-cria-diretoria-activity-6684244330376519680-NN6v.

 

Texto escrito por Magali Lopes – Facilitadora de diálogos, Mestre em Action Learning Coach, Especialista em perguntas poderosas e Coach executiva

https://www.linkedin.com/in/magali-lopes/

 

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