DIVERSIDADE RACIAL – A Dívida Imensa que Todos Nós Temos
Artigo de Marco Ornellas

escrito por Marco Ornellas

“E eu queria dizer que falar de diversidade racial não é fácil – não é fácil para ninguém.”

Não, não é fácil. É muito difícil. Imagine, então, colocar a diversidade em prática dentro de uma empresa, na nossa sociedade? Erros vão ser cometidos, deslizes, enganos, palavras fora de lugar… É um longo aprendizado.

Esta semana que passou, tivemos no programa Roda-Viva a entrevista de Cristina Junqueira, sócia e cofundadora do Nubank. Uma frase acabou por incendiar as discussões nas redes sociais, quando ela disse que “não dá para nivelar por baixo”, sobre a dificuldade de recrutar funcionários negros.

No dia seguinte, ela publicou um pedido de desculpas, reconhecendo que a frase tinha sido infeliz, e acrescentando a frase que abre esse artigo.

Nós vivemos em um período de mudanças, onde os nossos melhores esforços devem ser dedicados a transformar o mundo em um lugar com mais igualdade e mais diversidade. Igual e diverso? Não é uma contradição? Não. Temos que ter espaços iguais para toda a diversidade que existe em nossa sociedade e reconhecer que a inclusão é vantajosa para todos.

Se olharmos para os números do Nubank, vamos ver que se trata de uma das empresas que mais trabalha com a inclusão de mulheres e LGBTQIA+, mas ainda engatinha na questão racial. Para além do deslize cometido por sua cofundadora – fruto do racismo estrutural, em que todos nós estamos mergulhados – é possível ver que é uma empresa sensível à questão, que busca formas de resolvê-la. Tanto que após a repercussão da fala, a empresa mergulhou em discussões com ativistas e funcionários negros, publicando em menos de uma semana um compromisso antirracista, que promete uma “agenda real com ações concretas e ambiciosas”, visando aumentar a diversidade racial na empresa.

Ações – e reações como essa – são extremamente necessárias. Afinal, se a sociedade criou mecanismos para excluir uma parte da sociedade, agora é preciso que crie outros para incluí-la.

Parece um raciocínio simples, poderia ser algo unânime, mas não é, ao contrário, um cenário repleto de conflitos e divergências. Existe uma reação muito forte a ele, assim como uma incompreensão enorme sobre tudo o que envolve diversidade e inclusão, gerando críticas e questionamentos onde se repetem termos como “mimimi”, “racismo reverso”, “vitimização”.

Não acredita?

Quer perder a fé na humanidade? Vá até a seção de comentários de qualquer site de noticias, especialmente se a matéria for sobre diversidade. Lá, entre várias coisas, nós podemos encontrar ataques furiosos e irracionais à Cristina, não por causa do que disse na entrevista, mas por pedir desculpas e se colocar ao lado da inclusão.

Por isso, talvez seja interessante usar esse espaço para vermos os caminhos que a nossa sociedade seguiu até aqui, na desconstrução da identidade de vários povos, na sua verdadeira desumanização. Não é um caminho agradável, mas temos que olhar para ele para entender o presente e construir um novo futuro.

A escravidão, para ser posta em prática por reinos europeus, precisou recorrer a subterfúgios que a tornassem moralmente defensável. O principal deles foi fazer com que os povos escravizados fossem vistos como seres inferiores. É importante lembrar que negros e indígenas chegaram a ser exibidos em zoológicos na Europa e nos Estados Unidos por muito tempo. O último desses “zoológicos humanos” não data da época da escravidão, mas incrivelmente, de um ano tão recente quanto 1958, na Bélgica. Nessa época, nos Estados Unidos, negros tinham que sentar nos bancos de trás dos ônibus e não eram admitidos em alguns restaurantes e hotéis.

Teses absurdas, como a de que negros seriam o elo perdido entre os brancos e seus ancestrais primatas ou mesmo que eles e os indígenas não possuíam alma, chegaram a ser populares. Até argumentos tirados da Bíblia foram usados, como o que dizia que eles carregariam uma maldição divina, por descenderem de Caim (o que matou Abel) ou de Cam (filho de Noé, amaldiçoado por ele. O fato de que no Brasil, a própria Igreja tinha seus escravos, funcionava como uma chancela dessas ideias. Demonizar o continente africano, como foi feito, dava uma aura de benfeitores para traficantes, por incrível que pareça. Eles estariam resgatando os povos escravizados do pecado, trazendo-os para a verdadeira fé. Em troca, deveriam ser pagos com submissão absoluta e trabalhos forçados.

Quando veio a abolição, não houve reparação e nem se criaram as condições para que os libertos ingressassem na sociedade. Sem educação e sem posses, foram jogados às ruas, sem destino.

Essas são a base do racismo estrutural. Não são coisas do passado, suas consequências estão presentes. Quem é branco ainda se beneficia delas, todos os dias. Frases muito repetidas, tais como “uma pessoa deve ser contratada por mérito, por sua competência, não pela cor da pele”, só ajudam a aprofundar o fosso. É preciso ter uma visão maior, que contemple todos os contextos, históricos, sociais e culturais.

É importante incentivar os esforços que várias empresas estão fazendo, ao criar programas que visam dinamitar as barreiras que existem, até o dia em que não sejam mais necessários. Há inúmeros exemplos bons e efetivos que vão além do marketing e da imagem. Mas é importante também reconhecer os erros e a humildade de alguém quando os admite, a dificuldade e a coragem necessária em abordar esse tema, e a dificuldade que é de todos nós. Precisamos crescer nos vários marcadores sociais e isso não é uma tarefa que se faz sozinho e sim juntos. Para isso, precisamos estar dispostos a ouvir, a acolher, a aprender, a mudar conceitos antigos. Precisamos entender que existe uma dívida social enorme e já passou da hora de pagá-la. Caracterizar qualquer reivindicação nesse sentido como “mimimi”, gerar polarizações e conversas preconceituosas e repletas de ódio é, no mínimo, um desrespeito imenso ao sofrimento de milhões de pessoas, ao longo de séculos e não contribui em nada para um mundo mais inclusivo, mais verdadeira humano.

 

Artigo de Marco Ornellas – Consultor e CEO da 157next.academy

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