NÃO HÁ INOVAÇÃO SEM INCLUSÃO
Artigo de Marco Ornellas

escrito por Marco Ornellas

O tempo é de eleições. Acabamos de acompanhar o drama da eleição americana e nessa semana teremos as eleições municipais no Brasil, que prometem ser mais tranquilas. Tanto em uma como em outra, quando se pensa em inclusão, há bons motivos para se comemorar.

Na eleição americana, o mais óbvio é a eleição para a vice-presidência de uma mulher negra, filha de imigrantes jamaicanos e indianos. Devido à idade avançada de Joe Biden, há uma boa chance de que ele não concorra à reeleição daqui a quatro anos, abrindo espaço para que ela seja a candidata. Biden parece já ter sinalizado nesse sentido e, por isso, é provável que Kamala tenha um grande protagonismo nesse novo governo.

Mas, em instâncias menores, também tivemos outras boas notícias para a causa da inclusão. Em Delaware, Sarah McBride foi eleita para o Senado estadual com 86% dos votos, derrotando o republicano Steven Washington. É a primeira vez que uma candidata transgênero se elegeu para esse cargo na História do país, 88 anos depois que a primeira mulher em 1932 foi eleita para o Senado americano.

Em Vermont, Taylor Small se elegeu como a primeira deputada transgênero, se tornando a quinta legisladora trans, espalhadas por vários cargos, desde a vitória de Danica Roem para a assembleia do estado da Virginia, em 2017. Essas pioneiras não só fizeram história como abriram caminho para outras e ajudaram a construir uma sociedade mais diversa e representativa.

No Brasil, essa História começa nas eleições de 2018, com a eleição de Érica Malunguinho como deputada estadual em São Paulo. Ela foi a única candidata individual de pessoas trans a ser eleita, com mais de 55 mil votos. No entanto, nas mesmas eleições também foram eleitas Robeyoncé Lima, em Pernambuco, e Erika Hilton, também em São Paulo. O que diferencia esses dois últimos casos, é que elas foram eleitas participando de chapas coletivas, isso mesmo, elas são co-deputadas. O coletivo da Erika é formado por mais oito pessoas e o da Robeyoncé, por outras quatro.

Como o TSE não reconhece as candidaturas coletivas, elas são eleitas apenas para uma cadeira nos respectivos Legislativos, dividindo um único salário. Na urna, é a foto de apenas uma das participantes que aparece. Mas elas são permitidas pela Justiça Eleitoral, que aceitou nove delas em 2018. Para as eleições de 2020, elas estão presentes em várias cidades. Só em São Paulo, há 27 chapas concorrendo para uma das 55 vagas da Câmara Municipal, um crescimento exponencial.

As vantagens dessa forma de candidatura são inúmeras. Além de possibilitar uma maior participação popular em cargos do Legislativo, aumentando o poder da democracia, ela também possibilita a inclusão de minorias que teriam muito mais dificuldades para conquistar um cargo público, se concorressem sozinhas. Sem contar que todas as ações do mandato são discutidas em conjunto, um trabalho co-laborativo e co-participativo, diminuindo em muito as chances de permanência eterna no cargo e no poder, diminuindo a corrupção e ressignificando o cargo eletivo.

Esses movimentos vindos da Política e da sociedade, são uma boa notícia também para o mundo corporativo. Além de darem o exemplo da necessidade de inclusão e de criarmos empresas mais representativas e humanas, mostram que não podemos nos conformar com o que está estabelecido, precisamos ir além, abrir os caminhos e fazer diferente, buscando a inovação.

Diversidade e Inclusão pedem criatividade. Como propor um novo modelo de sociedade, se formos nos guiar por velhos parâmetros? Cinco anos atrás, a proposta de algo como uma candidatura coletiva seria recebida com risos, mas hoje já se tornou uma realidade que só vai crescer. Isso mesmo só vai crescer!

Nas empresas, a forma como os cargos, as áreas e as estruturas são vistas passa também por uma grande transformação. Um novo contexto pede um novo desenho e uma nova ordem. Já estão em prática novas formas de organização, como times flexíveis e sem fronteiras, achatamento das hierarquias, cargos compartilhados, times autogerenciáveis, organização em rede, “esquadrões” de competências complementares, todas elas privilegiando o coletivo, a colaboração e abrindo espaço para inovação, inclusão e uma diversidade cada vez maior. Líderes inteligentes estão removendo as velhas barreiras tradicionais e desenhando novos empreendimentos.

Apesar de termos evoluído muito com a pandemia, ainda é pouco. Temos que buscar as inovações que garantam o avanço das pautas inclusivas, dando oportunidades iguais àqueles que historicamente têm sido deixados de fora. A perda não é só deles, é de todos nós, se pensarmos na quantidade de talentos que não são desenvolvidos porque ainda estamos presos a velhos formatos, que se opõe ao aumento da Diversidade.

Falamos aqui de Política, porque ela traz um simbolismo enorme. Pessoas que exercem cargos públicos acabam se tornando modelos para a sociedade. O que traz um perigo enorme, como sabemos. Mas pensando em um lado positivo, podemos ficar com as palavras de Kamala Harris, no seu primeiro discurso como Vice-Presidente:

“Embora eu seja a primeira mulher nesse cargo, não serei a última. Porque cada menina assistindo a essa noite vê que este é um país de possibilidades e para todas as crianças do nosso país, independente do gênero, nosso país mandou um recado claro: sonhe alto, com convicção e vocês se verão num caminho que outros talvez não traçaram simplesmente porque nunca tinham visto antes.”

 

Artigo de Marco Ornellas – Consultor e CEO da 157next.academy

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