#NÃOVOLTE
Artigo de Marco Ornellas

Escrito por Marco Ornellas

Você sonha com uma volta ao mundo que existia antes de março de 2020, antes que o vírus chegasse e mudasse nossas vidas? Sonha com essa volta ao normal? Já repetiu que “só quer que isso tudo acabe?” ou “ Que 2020 termine?”

A pandemia é terrível, não resta dúvidas. Todos nós queremos que passe, que a vacina chegue. Mas passando esse momento, onde estaremos? De volta ao mundo que tínhamos, à sociedade onde vivíamos? Espero que não.

Muito se falou sobre como sairíamos melhores desse momento: menos egoístas, mais solidários. Mas essa foi uma tese que foi contestada no minuto seguinte ao seu surgimento. Mas por que não sairmos melhores como sociedade? Por que não aproveitar essa chance para rejeitar aquele mundo que conhecemos até março? 

Razões para isso não faltam e as grandes empresas já perceberam. Tanto é verdade, que está em marcha o movimento #NaoVolte, com a participação de CEOs de diversas empresas, como Boticário, MRV, ATVOS, Malwee, SODEXO, entre outras, tendo como objetivo uma retomada econômica sustentável pós-Covid. 

É preciso mudar, avançando no compromisso ambiental. O planeta está sendo levado a um ponto onde a vida humana se tornará cada vez mais difícil. Voltar ao normal de antes da pandemia, é continuar espalhando plástico pelo planeta, na comida, na água, é continuar a ameaçar a biodiversidade, levando várias espécies à extinção e ameaçando o equilíbrio dos biomas, é tornar a água escassa, o ar irrespirável, as temperaturas cada vez mais extremas, os cataclismas mais frequentes. 

O Brasil desmatou a Amazônia de forma recorde esse ano, mesmo com a pandemia. Aliás, por causa da ação de grileiros, madeireiros ilegais e garimpeiros, o vírus chegou às reservas indígenas e várias lideranças morreram. Sociedades já frágeis se enfraqueceram ainda mais, colocando em risco a existência de várias etnias. O Pantanal enfrentou no mesmo ano a maior seca e os maiores incêndios de sua história, com pouco apoio das autoridades. Áreas imensas queimadas, milhares de animais mortos. Algo que vem se estabelecendo como “normal” a cada ano que passa.

É preciso mudar, avançando na Diversidade e Inclusão. Precisamos alcançar o respeito a todos, sem exceções, combatendo o racismo, a xenofobia, a misoginia e qualquer forma de discriminação. Enquanto o número de assassinatos caiu entre a população branca, aumentou entre a população negra. Estes são dados do ano passado. Algo que também é visto como normal, como assassinatos que acontecem em estacionamentos, gravados e exibidos nas redes sociais. Ou um homem que morre em uma padaria, depois de pedir ajuda, e ela continua a funcionar, com fregueses tomando um cafezinho a poucos metros do corpo caído, coberto com um saco de lixo. Mas era um morador de rua, negro, então é normal que a ajuda tenha sido negada e que a vida siga, enquanto o corpo aguarda que o retirem em algum momento. 

Só para mostrar o que é a nossa normalidade, nessa semana tivemos a seguinte manchete:

Ação do Carrefour já vale mais do que na véspera do assassinato

Sim, no dia 30 de novembro, pouco mais de 10 dias depois da morte de João Alberto Freitas, as ações da rede tiveram uma valorização considerável, levando-as a um patamar maior do que estavam antes das quedas que se seguiram à morte. Normal. Essa é a lógica da nossa sociedade. Toda a publicidade negativa já é passado, os consumidores continuam fazendo suas compras na rede e o lucro continua, ainda mais forte. Por que seria diferente, quando esse é o normal?

Nessa semana, saiu uma matéria na revista Piauí, detalhando o comportamento da Globo no caso Marcius Melhem, que só não foi abafado porque uma das vítimas levou a denúncia adiante, enfrentando obstáculos dentro da empresa para seguir com a denúncia. Ou seja, o normal na maioria das empresas, como todos sabemos. Ou, como poderíamos dizer, mais um caso em que a cultura come o compliance no bar Vizinha 123 (onde aconteceu o primeiro assédio de Melhem contra Dani Calabresa). Quantos não são os casos em que a vítima de assédio moral ou sexual (ou ambos) não é demitida ou desacreditada? Para o abusador, uma terapia ou um processo de coach são oferecidos, mais como uma compensação do que como uma real tentativa de cura pessoal. Tantas, tantas empresas onde esse roteiro se repete, onde chefes não são líderes, mas apenas abusadores. O que foi normal por tanto tempo, o que ainda é normal em muitos lugares.

É preciso mudar. É preciso deixar esse normal para trás. Não é apenas um novo normal que se pede, é um rompimento absoluto com o velho. Temos que olhar para trás e dimensionar todo o mal que já foi regra, para podermos avançar. 

Por isso, esse apelo é tão necessário: #NaoVolte. 

Não podemos simplesmente adaptar um sistema doente, é preciso mudá-lo.

Já estamos em um outro momento, quando vemos o CEO de uma grande empresa pedir aos consumidores que consumam menos, que sejam mais conscientes, responsáveis. Poderia ser um contrassenso, mas não é. É o começo de algo novo. Para que seja algo melhor, depende de como vamos construir esse novo momento. Só não podemos voltar, andar para trás. O mundo como o conhecemos está se dissolvendo, nas palavras de Mattias Horx, futurista:

“No momento, muitas vezes me perguntam quando Corona “terminará” e quando tudo voltará ao normal. Minha resposta é: nunca. Há momentos históricos em que o futuro muda de direção. Nós os chamamos de crises profundas. Esse tempo é agora. O mundo como o conhecemos está se dissolvendo. Mas por trás dele surge um novo mundo, cuja constituição podemos ao menos imaginar.”

A Covid-19 não é um fato isolado, como as outras epidemias. É uma pandemia, dentro de um novo normal, extremamente desordenado, que tem nos obrigado a nos reinventarmos como humanos, como sociedade, como organizações e até como nações, dentro de um mesmo planeta.

 

Artigo escrito por Marco Ornellas – Consultor e CEO da 157next.academy

  

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