O CONTO DAS FARMACÊUTICAS
Artigo de Marco Ornellas

O CONTO DAS FARMACÊUTICAS ou O Subterrâneo de um Capitalismo sem Propósito

Era uma vez, em uma galáxia muito distante, um planeta sobre o qual se abateu um Grande Mal. Não respeitou as divisões de fronteiras, nem as diferenças entre as diversas populações, também não discriminou ricos de pobres, se espalhando sem controle entre todos os habitantes. Tudo parecia perdido e a esperança se esvaía, quando algo aconteceu. As principais lideranças, os cientistas, também os artistas, as empresas e toda a população, absolutamente todos, se uniram para neutralizar aquele Grande Mal e afastar o perigo. No nascer daquele novo dia, perceberam que mais que a Política, a Ciência, a Geografia ou a Arte, o que salvou o planeta foi a União de todos. Naquela noite, repousaram tranquilos e viveram felizes para sempre.

Conto de fadas? Sim, totalmente.

A nossa realidade, é bem outra. Nos últimos meses, temos assistido como nos comportamos globalmente em um momento de grande crise, uma hora que pediria união, mas que só encontrou polarização e a “lei dos mais espertos” aplicada indiscriminadamente, com muitas pessoas, em vários níveis, querendo levar vantagem no que fosse possível. Um governador caiu, secretários e empresários foram presos, gente furando fila para tomar a vacina e até vacina sendo usada como presente para a namorada. Tudo no melhor exemplo de egoísmo e egocentrismo. E isso é só uma parte, muito mais virá.

Por outro lado, a pandemia obrigou governantes a tomarem medidas, muitas vezes extremas, de distanciamento e lockdowns, para proteger a população. Dizendo assim, poderia parecer que houve um saldo positivo nisso tudo, mas sabemos que não. Em muitos casos, essas medidas não foram nem atendidas, nem entendidas, sendo até mesmo rechaçadas ou criticadas. Líderes se dividiram na forma de encarar esse grande mal, muitos ajudando a espalhar o negacionismo sobre a Terra.

E a Ciência? Cientistas compartilharam esforços e trabalharam com extrema rapidez, sequenciando o genoma do vírus. Duas cientistas brasileiras tiveram papel essencial nesse projeto, que ajudou a se chegar mais rapidamente ao desenvolvimento de testes e vacinas. Vacinas que foram desenvolvidas em tempo recorde, por várias farmacêuticas. Um feito e tanto.

Mas quando chegou o momento de oferecer essas vacinas, tudo se complicou.

Oferecer não é a palavra, como sabemos. Vamos deixar a frase mais realista:

Mas quando chegou o momento de vender e lucrar com essas vacinas, tudo se complicou.

Em um primeiro momento, as farmacêuticas foram louvadas por seus esforços, pela soma de conhecimentos adquiridos que levou ao desenvolvimento de vacinas com uma rapidez nunca antes vista. Louvadas, é claro, desde que não fossem chinesas ou nem tivessem uma associação ainda que fantasiosa com o Bill Gates. Essas, foram vítimas de inúmeras fake news, atendendo a interesses escusos. Mas cá entre nós, quem acredita em contos de chips líquidos e mudanças no DNA, tem problemas maiores do que a Covid.

Todas viram suas ações crescerem no último ano, como reza a boa lógica das Bolsas. Algumas tiveram um crescimento fora do padrão, lideradas pela americana Novavax, com uma alta de impressionantes 1.558%. E aqui, é interessante notar que a vacina da empresa ainda se encontra na fase de testes. Foi seguida pela Moderna (alta de 558%) e pela BioNTech (alta de 223%). Poderia ser suficiente, um justo retorno pelos esforços.

Mas então, começaram a vazar detalhes dos contratos. Como no conto de Robin Hood, o sistema era tirar dos mais ricos e dar aos mais pobres. As farmacêuticas cobram um preço mais alto pelas doses vendidas aos países mais desenvolvidos, diminuindo o valor para as doses vendidas aos outros países. Nada muito diferente de mercadinhos em cidades turísticas, que às vezes mantêm duas tabelas de preço: uma para quem está visitando a cidade e outra para quem mora nela. Ainda que nesse procedimento, haja uma lógica que favorece quem precisa ser favorecido, isso cria uma instabilidade muito grande entre governos e a opinião pública. Esses contratos são protegidos por cláusulas de confidencialidade, que impedem que sejam divulgados na íntegra. Na Europa, houve o caso da Ministra de Orçamento da Bélgica que divulgou a lista de preços dos laboratórios com os quais a União Europeia estava negociando. Foi obrigada a apagar o tuite, tamanha a repercussão negativa.

Tudo dentro de uma lógica de nenhuma transparência, como sempre.

Ao montar uma tabela de preços com essa diferenciação, ainda que em tese se queira favorecer aos mais pobres, vemos que a lógica do lucro ainda se impõe a qualquer outro desejo. Além da falta de transparência que esses contratos geram, há outra questão: alguns países manifestaram o desejo de comprar doses extras, que seriam doadas para países em desenvolvimento. Se o preço mais alto que estão pagando for mantido, menos doses serão compradas para doação. Se um preço mais baixo for feito para esse caso, contratos separados terão que ser feitos, gerando enorme burocracia. Sem falar na insatisfação gerada em parte da população desses países, especialmente com o crescimento de movimentos nacionalistas.

O lucro das farmacêuticas nessa crise, seja com a comercialização direta das vacinas ou com a valorização nas Bolsas, será enorme. As doses, mesmo nos seus preços mais baixos, já devem vir acima do preço de custo. Então, porque não optar por práticas comerciais mais sustentáveis, transparentes e menos exploradoras, práticas que de fato tragam um impacto na sociedade? Uma oportunidade como essa não deve se apresentar tão cedo. Ou, pelo menos, vamos torcer para isso.

A Federação Internacional da Cruz Vermelha revela que apenas 0,1% das doses até hoje distribuídas foram destinadas aos 50 países mais pobres do mundo. Já os 50 países mais ricos do mundo ficaram com 70% de todas as vacinas até agora aplicadas. Que lógica humanista é essa? Em plena pandemia, isso mesmo, PANDEMIA (segundo a OMS é a disseminação mundial de uma nova doença). Mas, ainda assim, o projeto de democratizar as vacinas conta com uma forte rejeição por parte dos países ricos, detentores das patentes. Não seria mais inteligente, humanitário e sustentável suspender as patentes de vacinas e permitir que seja produzida em sua versão genérica em mais países ao redor do mundo? Não seria mais rápido e efetivo a imunização da humanidade e a “volta ao normal” das sociedades e dos negócios? Seria, mas países como o Brasil, seguindo a orientação do governo Trump, se opôs à quebra de patentes. Isso, além do prejuízo em si para o Brasil, ainda criou uma tensão diplomática com a Índia, que atrasou a entrega das doses da vacina da AstraZeneca para o nosso país.

O mercado de vacinas seria um ótimo exemplo de um negócio com um propósito maior posto em prática. É só vermos o resumo dessa história:

Algumas poucas empresas produzem um medicamento que sete bilhões de pessoas terão que usar, não só pela saúde de cada indivíduo, mas para evitar o colapso de economias de países inteiros. Algo fundamental, desenvolvido a partir do esforço conjunto de vários cientistas e pesquisadores ao longo dos séculos, que plantaram a base do conhecimento que permitiu que as cientistas brasileiras realizassem o sequenciamento e depois as farmacêuticas desenvolvessem cada uma a sua vacina. Até aqui, é uma história hollywoodiana de superação, com um final feliz. Mas então, vem o Velho Capitalismo, o velho jeito de fazer negócio e se impõe, apelando aos velhos clichês. Vemos, então, que aqueles que podiam ser os heróis desse conto se tornarem os vilões.

E, como é sempre importante ressaltar ao se tocar nesse assunto, essa não é uma romantização, uma visão edulcorada do assunto, muito menos “hippie”, ou “de esquerda”, “comunista”, ou o rótulo que se quiser usar. Estamos falando de vidas e mortes. Vacinas deixaram de ser aplicadas com mais rapidez porque era preciso esperar pelas negociações, esperar pelos atrasos causados pela polarização, pela logística e pela velha lógica que torna alguns mais ricos, mas menos humanos. O custo disso teve seu preço cobrado em milhares de vidas que poderiam ter sido salvas, todos os dias.

Esse Grande Mal ainda não passou, pessoas continuam morrendo, com um número de vacinas ainda insuficientes sendo aplicadas, especialmente no Brasil.

Mas vai passar, as vacinas chegarão, ainda que lentamente.

O outro Grande Mal, da lógica que diz que “o único propósito de uma empresa é gerar lucro para os acionistas” e que ainda dirige muitas das nossas ações há séculos, talvez só passe quando uma nova lógica de um capitalismo mais sustentável e consciente se tornarem regra. Só depende de cada pessoa, de cada empresa, de cada líder.

Mas o caminho ainda é longo e será construído a um custo muito alto, pago em vidas.

 

Artigo escrito por Marco Ornellas – Consultor e CEO da 157next.academy

 

 

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