O LADO OBSCURO DAS STARTUPS
Artigo de Marco Ornellas

Escrito por Marco Ornellas

Quer ser o próximo Mark Zuckerberg?

Vai ajuda1r muito se eu disser para você que aos 42 anos será o melhor momento para começar a sua startup?

Se minha afirmação chocou você, fique tranquilo, porque ela está apoiada em dados. O choque talvez venha por causa do mito que se criou em torno das startups.

Ganhos fáceis, rápidos e um aglomerado de gente jovem, disposta a tudo para empreender, é só um pedaço da cena. Exageros, distorções, estelionatos, mentiras e até mesmo crimes, envolvem esse universo, mas os casos de sucesso tendem a iludir público e mercado e, também jovens de 20 anos que acreditam que serão o próximo Zuckerberg.

Dentro deste quadro, a desconexão com a realidade é um problema ainda maior, seja para o jovem ambicioso que quer conquistar o mundo, seja para o empreendedor de 42 anos que se sente desestimulado a começar seu negócio, achando que seu tempo já passou, quando é exatamente o contrário.

Mas esse é o menor dos problemas.

Na minha opinião, o problema maior reside no outro lado dessa força. Falei de crimes e eles existem. Segundo alguns especialistas, o ambiente tóxico das startups repete o mesmo padrão do ambiente corporativo tradicional, mas envelopado em liberdade e modernidade.

A verdade é que, no campo encantado que se estende debaixo deste arco-íris, há espaço apenas para poucos unicórnios. Sim, são poucos os eleitos, muito poucos.

É importante esclarecer que minha intenção é apenas trazer luz ao universo das startups, não fazer uma pregação contra o modelo em si. O que parece ser unânime, é a idealização que se projeta em torno dele, uma ilusão que pode custar tempo e dinheiro para todo o ecossistema. E como em alguns casos estamos falando de muito tempo e muito dinheiro, nesses casos é melhor fincar bem os pés na realidade antes de prosseguir.

Facebook, Uber, Airbnb, iFood, Nubank. Cada uma no seu campo, estas gigantes que começaram como startups são o que há de ponta nesse universo, modelos que servem de inspiração para milhões de empreendedores. E também para investidores que sonham com esse modelo, onde projetam injetar uns poucos reais e ter um bilhão de reais de retorno rapidamente.

O caso da Facebook é particularmente significativo: lançado em 2004, quando era restrito aos estudantes de Harvard, só foi aberto para o público em geral em 2006. Ainda em 2004, recebeu a primeira oferta, de 10 milhões de dólares, por um financiador cuja identidade não foi revelada. Na época, Zuckerberg tinha 20 anos. Em 2005, foi a vez da Viacom fazer uma proposta de compra de 75 milhões. Zuckerberg preferiu receber um investimento de 35 milhões, do Washington Post, e manter a empresa. Em 2006, a mesma Viacom subiu a oferta para 1,5 bi, com o pagamento de 800 milhões à vista. O negócio quase se realizou, mas Zuckerberg pediu um valor inicial maior, e o acordo não foi para frente. O Google fez duas propostas, que também foram recusadas. A última foi em 2007, ano em que a empresa já era avaliada em 15 bilhões de dólares.

Uma história como essa pode ser inspiradora, claro. Mas também pode levar jovens empreendedores a se distanciarem da realidade, acreditando que basta uma grande ideia e algum suporte para fazer a sua empresa decolar. Ou mesmo que basta uma boa ideia e teremos uma fila de investidores querendo apostar nela. Recentemente, a revista Exame trouxe a seguinte declaração de Zack Miller, diretor de crescimento da Weel, uma plataforma digital de antecipação de recebíveis e facilitação de crédito para os negócios, com um longo histórico de atuação junto a fintechs e investidores:

Ouvindo as pessoas do meio, a mídia, os próprios investidores e empreendedores, sempre se imagina a história do cara que escreveu a ideia de um negócio num guardanapo, juntou dinheiro e se tornou um bilionário em poucos anos sem experiência prévia. E isso é pura besteira. É uma mentira e uma história prejudicial sobre empreendedores e investidores”, afirma Miller, em entrevista concedida durante passagem pelo Brasil. “Parece glamuroso, mas é uma pura questão de números. E a maioria das startups falha”.

Infelizmente, uma grande ideia e bons investimentos, não são os únicos elementos necessários para transformar uma startup no próximo grande caso de sucesso. Tudo depende do contexto, onde sempre cabe uma análise de muitas variáveis.

Um exemplo muito lembrado é a da Webvan. A empresa oferecia compras de supermercado pela internet, com entregas em 30 minutos. Incrível, não? O que podia dar errado nessa ideia? Hoje, talvez nada. Mas o problema foi a época em que foi concebida, o começo dos anos 2000, quando o hábito de fazer compras online ainda não estava consolidado. Um caso de startup que chegou cedo demais. Faltou uma avaliação realista do mercado, baseada em muita pesquisa.

E, claro, existe sempre o fator humano. Nem mesmo grandes ideias resistem a administrações temerárias ou a um caráter duvidoso. A Pay By Touch, foi outra empresa muito à frente do seu tempo, que poderia ter antecipado algumas inovações em pelo menos uma década. Com o sistema da empresa, seria possível fazer pagamentos em lojas através do uso de biometria – isso em 2005! O sistema realmente existia, era seguro, a sua utilidade incontestável, conseguiu-se levantar 340 milhões de dólares e a empresa chegou a ter 800 funcionários. Mas o problema aqui foi o fundador da empresa, John Rogers, com uma vida pessoal problemática, que incluía abusos e desvios no caixa da empresa.

Há ainda o caso emblemático e extremo da Theranos, um verdadeiro esquema que quase transformou sua fundadora em uma das mulheres mais ricas do mundo. O produto que ofereciam – uma forma supostamente revolucionária de fazer exames de sangue – era uma fraude.

E há casos em que mensagens mentirosas de investimentos e promessas milagrosas de soluções digitais encantam as conversas de marketings e vendas e abrem possibilidades infinitas. O problema é que elas não se sustentam à uma simples pesquisa para comprovar a veracidade de tudo isso. Fraude, fraude e mais fraudes.

Qualquer mito, que leve a hiperidealização, de qualquer coisa, é prejudicial. Você sabe muito bem disso, não?

O modelo das startups é uma forma inovadora de se começar um novo negócio, mas ele em si não é uma garantia de sucesso. Continuamos precisando de muita pesquisa e boa administração de ideias, pessoas e recursos para trazer alguns unicórnios para a nossa realidade. Somente com inspiração não iremos construir um império ou um mundo melhor. É preciso muita transpiração, muita transparência e muita humildade.

 

Artigo escrito por Marco Ornellas – Consultor e CEO da Ornellas Community

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