OTIMISMO CONSCIENTE
Artigo de Marco Ornellas

Escrito por Marco Ornellas

Quando se começa a trabalhar com Diversidade e Inclusão, acabamos furando a bolha em que vivemos e mergulhando em uma realidade que sempre vai chocar, pelo menos, enquanto grandes mudanças não acontecerem. São universos que estão bem ao nosso lado, mas que parece que escolhemos ignorar. Isso muda quando tomamos consciência e ficamos atentos a tudo o que é preciso ser feito.

Mas, às vezes, nos deparamos com boas notícias que chegam em sequência. E tem sido assim, ultimamente; grandes avanços têm acontecido em pouco tempo. Nesses momentos, podemos acreditar que as mudanças serão permanentes e estão se acelerando. Talvez seja um mecanismo nosso: quando as dificuldades são muitas, nos agarramos às boas notícias que aparecem. Mas será que em termos de Diversidade e Inclusão, já temos direito ao otimismo?

Quando aconteceu o “caso Nubank”, serviu para testar a resposta da sociedade. Uma fala fora de lugar da representante do banco sobre Diversidade racial, ocasionou uma enxurrada de críticas, que acabaram levando o banco a acelerar as ações inclusivas dentro da instituição. Publicaram uma carta com os compromissos assumidos nessa questão e, mais do que isso, destinaram um investimento de R$ 20 milhões para garantir que o impacto das iniciativas adotadas seja significativo.

Ainda na área de bancos, tivemos a chegada do Pride Bank, o primeiro banco digital LGBTI+. E é brasileiro. Além de se dirigir diretamente à essa comunidade, o banco ainda nasce vinculado à uma organização que receberá um percentual da receita para apoiar causas sociais, o Instituto Pride.

Iniciativas como essas, poucos anos atrás, seriam impensáveis. Mas não é só dessa área que chegam as boas notícias.

Nas eleições da última semana, segundo a Aliança LGBTI, foram eleitas 27 candidaturas trans ao redor do Brasil, algumas com votações expressivas, como Erika Hilton e Thammy Miranda em São Paulo, e Duda Salabert em Belo Horizonte, que se tornou a vereadora mais votada da história da cidade, com 37.613 votos.

Parece que podemos ficar felizes por ver uma parte da sociedade mudando. Cidades como Curitiba e Joinville pela primeira vez elegeram vereadoras negras. Primeira vez… Aqui, já fica difícil saber se comemoramos o avanço ou lamentamos o tamanho do atraso. A última opção fica mais forte quando chegam as notícias de que Ana Lúcia Martins, a vereadora de Joinville, está recebendo inúmeros ataques nas redes sociais, inclusive com ameaças de morte.

Nessas eleições, também tivemos a estreia da cota racial, que determinou que os partidos distribuíssem a verba pública de forma proporcional entre negros e brancos, a exemplo da cota de gênero, em vigor desde 2018. Essas medidas ainda enfrentam a resistência dos partidos, que não chegam a cumpri-las. Apesar disso, tivemos alguns resultados positivos na questão racial: das últimas eleições para essas, o número de vereadores negros subiu de 42% em 2916 para 45%. Mas curiosamente, no caso de mulheres, a distância ainda é enorme: conquistaram apenas 16% das vagas nas Câmaras de todo o país. Muito, muito pouco.

Nas prefeituras, no primeiro turno tivemos a eleição de 1729 candidatos negros, 9 mulheres e 7 indígenas. Números pequenos, que não refletem a nossa sociedade, mas que mostram avanços.

Mas ainda é preciso segurar o otimismo, por menor que seja. No ano em que Geoge Floyd foi assassinado em frente às câmeras, o Dia da Consciência Negra chegou com outro assassinato de um homem negro nas manchetes: em Porto Alegre, João Alberto Silveira Freitas foi morto por seguranças de um supermercado.

O próprio Dia da Consciência Negra não é uma unanimidade. Ele é feriado apenas em cerca de mil cidades do país, atraindo sempre muitas críticas. É até tradicional ver postagens de um vídeo do Morgan Freeman, afirmando que para “o dia em que pararmos de nos preocupar com consciência negra, amarela ou branca e nos preocuparmos com consciência humana, o racismo desaparece”. Sabendo disso, a colunista Cris Guterres, do UOL, publicou dias atrás um artigo, endereçado especialmente àqueles que planejavam compartilhar o vídeo. Ela fala sobre as formas mais comuns de fugir do assunto, como se o racismo realmente não existisse ou pudesse ser superado apenas parando de falar nisso, como acreditam pessoas que geralmente recorrem à frase-clichê “eu não vejo cor, eu vejo pessoas”.

Mas não dá para fugir do assunto. O racismo existe, a questão de gênero também, fazendo vítimas todos os dias. É preciso sempre lembrar que a sua bolha não corresponde à sociedade como um todo. É preciso falar sobre todas essas questões.

Claro, ainda assim, temos todo direito ao otimismo. Acredito mesmo que a marcha da Diversidade e Inclusão não tem mais volta, vai cada vez mais se expandir por todos os níveis da nossa sociedade. Já somos muito melhores do que éramos há 20 ou 30 anos, quando esses temas não estavam na pauta nem da sociedade, nem das empresas. Isso mudou. Já podemos dizer que a situação se inverteu, a inclusão passa a ser a regra. Mas o otimismo não pode nos levar a uma acomodação. Precisamos sim, reconhecer os avanços, mas também saber que estamos longe, muito longe de conseguirmos construir uma sociedade justa e igualitária.

Para chegarmos nesse objetivo, será preciso que haja consenso. Consenso de que racismo, homofobia e misoginia são inaceitáveis. Acredito que chegaremos lá, temos a História a nosso favor. É só pensarmos que a escravidão era considerada aceitável para o mundo todo e hoje olhamos para essa lembrança com horror. Estamos avançando lentamente, mas sempre em frente, dentro de uma sociedade que nos lembra a todo o momento que precisa ser mudada. Por isso, acredito que podemos ser otimistas. Conscientemente otimistas.

 

Artigo escrito por Marco Ornellas – Consultor e CEO da 157next.academy

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