Um Adeus que Traz Muitos Outros
Artigo de Marco Ornellas

Escrito por Marco Ornellas

Chico acordou cedo, antes mesmo que sua mãe entrasse no quarto para chamá-lo. Mas não era a ansiedade de ir para a escola nova, que começava naquele dia. Era receio, quase medo. Um pouco de revolta, também. Na outra escola, tinha os amigos, tinha a Bia, tinha os professores de que gostava e aqueles de que ele gostava de não gostar.

Para piorar, ontem tinha ouvido uma conversa entre seus pais, em que falavam de procurar outra casa para morar. Ficou com raiva e foi para a cama, antes que sua mãe pedisse. Ele sabia que ela faria isso a qualquer momento, tentando passar para ele uma animação com o novo começo que ela fingia, mas que não o convencia e só o deixava mais irritado. Escola nova, casa nova, muita coisa nova, foi para a cama e dormiu pouco.

O Chico dessa história é um personagem inventado, só existe nesses parágrafos. Mas a realidade dele é muito atual para muitas crianças em Camaçari, Bahia, desde o anúncio do encerramento das atividades da Ford no município, em janeiro.

A notícia pegou trabalhadores e governos de surpresa. Depois de 102 anos fabricando carros no Brasil, a montadora encerrava as atividades nas fábricas que ainda mantinha. Além da de Camaçari, também a de Taubaté, em São Paulo e a de Horizonte, no Ceará. A fábrica de São Bernardo do Campo já havia sido fechada.

No caso da Ford em Camaçari, a decisão afetou cinco mil trabalhadores diretos. De acordo com o jornal Valor Econômico “Os indiretos somam outros 60 mil. Como não há outra fábrica na região, a consequência é que todas as empresas ligadas a planta de Camaçari sejam fechadas, o que acarretaria na demissão de 72 mil pessoas.” Além dos trabalhadores, há outros impactos, um restaurante que atendia quase que exclusivamente os trabalhadores da fábrica no horário do almoço, teve que reduzir drasticamente o seu quadro de funcionários. E esse efeito se espalha por todo o comércio da região numa escala inimaginável.

E como o prefeito da cidade apontou, a saída da montadora pressiona também os órgãos públicos e outros setores. Com a queda abrupta nos rendimentos das famílias, crianças como o Chico, que estudavam em escolas particulares, terão que passar para as escolas públicas, gerando uma dificuldade em encontrar vagas. Também perderão o plano de saúde que era pago pela Ford, sendo levados a usar o SUS, sobrecarregando o sistema. Muitos que moravam de aluguel, terão que devolver suas casas, aumentando o déficit de moradias e gerando queda de renda também para os locatários. Haverá uma dificuldade muito grande para que esses trabalhadores encontrem uma nova colocação, em um mercado que já conta com 14 milhões de desempregados.

O adeus da Ford é como o primeiro dominó de uma fileira que vai se bifurcando em várias outras, derrubando mais e mais peças, em um movimento sem tamanho e sem igual.

É importante deixar muito claro que a intenção desse artigo não é tratar apenas do caso Ford, até porque acredito que sair de um país que tem um mercado imenso como é o caso do Brasil, não deve ter sido uma decisão fácil. Mas quero abordar esse assunto sobre outros ângulos, até porque o futuro da própria indústria automobilística está em questão e deve enfrentar mudanças enormes nos próximos anos.

O importante aqui é termos uma dimensão sistêmica e entender o impacto que a presença de uma empresa tem dentro da sociedade em que está. E pensar na enorme responsabilidade que isso traz. Aqui temos um exemplo, uma grande empresa, com milhares de trabalhadores, encerrando suas atividades. Como se trata de um grande e complexo ecossistema, qualquer de suas decisões afetam e impactam o todo desse ecossistema. Mas infelizmente, muitos executivos tomam decisões olhando apenas alguns poucos stakeholders que estão ao redor e não todos, seja no momento de crescimento, seja no momento de fechamento.

Fico aqui pensando: o que foi levado em consideração nos anos 2000 quanto a escolha do município e a decisão de ser a primeira montadora a se instalar no Nordeste em 12 de outubro de 2001? O que se tinha em mente no momento da decisão? Quais impactos no entorno foram considerados?

Na grande maioria das vezes a decisão é política, tributária e de oportunidade de incentivos e investimentos. De novo, o resultado e o dinheiro falando mais alto. Jornais da época destacam a disputa entre estados brasileiros nos anos 1990 e o início de uma política de guerra fiscal no Brasil. Em quase 20 anos, quantos não foram os sucessivos benefícios e incentivos fiscais concedidos pelos governos?

Os planos de investimentos previam os impactos em todo o ecossistema caso a operação fosse descontinuada 20 anos depois? Claro que não. Nem mesmo um caixa ou um fundo foi criado para os impactos ambientais e sociais.

Toda decisão tem repercussões enormes em todo seu entorno. Isso parece algo óbvio, mas é esquecido no dia a dia da maioria das empresas, voltadas muitas vezes e unicamente para o que acontece dentro de suas instalações, para dentro da sua bolha e dos muros que a cercam e para o presente. Paredes essas que precisam ser derrubadas, para que se tenha esse olhar de dentro para fora e um olhar de futuro.

Essa consciência pede uma ampliação do conceito de stakeholders, a partir do momento em que entendemos que todos aqueles que estão em volta de uma empresa podem ser afetados por suas decisões. No caso da Ford, escolas particulares serão afetadas por uma redução de alunos em suas salas de aulas. Professores deverão ser dispensados. As peças de dominó não param de cair. Todos o sistema é afetado. Todo, e nesse momento não se pode apenas pensar em quem é grande ou pequeno nesse ecossistema, apenas que são partes conectadas de um sistema. Até um provável pipoqueiro que trabalhe na porta em uma das escolas verá seus rendimentos diminuírem.

Empresas têm responsabilidade com a sociedade onde atuam. Responsabilidade Social. Essa consciência tem que ser de todos, trabalhadores, empresários, governantes, sociedade em geral. Os impactos de ações vão além do produto ou serviço que fabricam ou fornecem. Quando trabalham com Diversidade & Inclusão, estão ajudando a construir uma sociedade mais justa. Quando incluem práticas sustentáveis em suas instalações, estão ajudando a garantir o futuro de todo o planeta. Quando inovam em modelos diferentes de gestão, podem até mudar a forma como a sociedade se organiza.

É possível observar uma significativa mudança, ainda tímida é verdade, mas já presente, na visão e nas preocupações da sociedade nos últimos anos. Diante da necessidade de uma busca por um contexto mais sustentável e equilibrado até mesmo os investimentos têm considerado três letrinhas de grande impacto – ESG, ou seja: considerar e incorporar as questões ambientais (E – enviroment); as questões sociais (S – social); e as questões de governança (G – governance), permitindo dessa forma além das tradicionais métricas econômico e financeiras, uma avaliação de forma mais holística.

Exatamente o que faltou na decisão em 1999 para implantação do Projeto Fábrica da Ford em Camaçari e o que faltou na decisão 2020 por ocasião do fechamento da unidade.

Estamos vivendo novos tempos, onde estamos cada vez mais conectados. Precisamos viver essa consciência, em cada ato que fazemos. Precisamos prever que peças podemos derrubar a cada gesto que fazemos.

 

Artigo escrito por Marco Ornellas – Consultor e CEO da 157next.academy

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